sexta-feira, junho 30, 2006

Quem somos?













Apenas sombras do que gostaríamos de ser.

sábado, junho 24, 2006

A noiva cadáver













Nunca quis um vestido a sério, pareciam-lhe sempre esbranquiçados pela força do uso e costume social. Em vez de alvura virgem via neles trapos desenhados para conter as infiltrações do amor. As infiltrações são sempre exteriores, pensava, a guerra bacteriológica que é passear um amor pelas ruas, avenidas, países, horas e anos sem que este seja contaminado. O cansaço. Depois ele oferecia-lhe um pirilampo cortado rente na erva que o segurava, uma luz trémula e assustada, à beira do ataque cardíaco, repousava-lhe nas mãos durante uns minutos e apagava os candeeiros, a lua, a chuva, os relâmpagos. Amar é estar no palco, pensava, o foco sempre dirigido aos nossos passos, a insegurança de falhar perante uma plateia onde todos têm a nossa cara. Quando é que é ensaio e quando é que o espectáculo já começou? Quanto dura a temporada? Será itinerante?

Em tudo isto se sentou a pensar enquanto pensava na resposta a dar. Sim para um vestido branco, trapo cosido de infiltrações; não para a continuação da digressão de nós dois. Sobrevalorizou a veia dramática do noivo, que já tinha sofrido duas contaminações sociais. Ficou sentada a um canto do palco, longe da boca de cena.

sexta-feira, junho 16, 2006

Azimute

(Miguel Costa)

Do árabe as sumut, caminho, direcção.
Não é o suficiente para encontrar uma estrela no firmamento.

Janela de oportunidade





















( Miguel Costa)

Interrompemos por breves momentos - embora já tenham passado alguns meses - a história que se desenrolava neste blog. É preciso dizer que o tempo e o espaço aqui não fazem sentido, a dimensão para a qual os nossos heróis foram transportados assim o exigia. Que nos submetessemos às regras da narrativa. Rosa Andorinha e Zé Gato espreitam agora por esta janela.

Interrompemos por breves momentos porque a força desta imagem assim o impõe.

quinta-feira, junho 23, 2005

The village (II)


(Miguel Costa)


Rosa Andorinha estremeceu quando tentou libertar-se daquele abraço fora de horas e não conseguiu. Afastou finalmente Zé Gato e mirou-o com olheiras de medo. Começou a sentir que não conseguia respirar. Estava fora do 'Horário'. A sua palidez impressionou-o, sentia-a desfalecer sem luta. Ele lutava, mas sentia a mesma estranha submersão num plasma opaco, como se me estivesse a afogar, pensou, embora nunca tivesse visto, sentido o mar, sequer o rio que ali passava perto - diziam. Começou a imaginar esse rio descrito nas palavras de alguns, poucos, cada vez menos, se vou infringir as leis desta natureza criada pelos homens da Vila, se vou deixar aquele pátio onde é proibido viver depois das 19 horas, aos sábados, domingos e feriados, melhor seja que mergulhe. De uma vez. Deixou-se cair. Não se ouviu um splash, nem catrapum, nem nada audível, na verdade. Ao contrário, como numa implosão, a vila soltou um suspiro abafado e expeliu Zé Gato - suavemente -, que quase sem dar por isso levantara os pés do chão e levitava agora acima do pátio.

O leitor mais afoito compreenderá agora que tudo o que nestas crónicas surgir à laia de história mais não é do que a observação anárquica de um homem expulso das entranhas da sua própria casa, do seu bairro, cidade, nação. Do seu mundo. Das leis da vida e da sua interrupção. Nessa condição parasitária e exclusivamente contemplativa, Zé Gato viu primeiro - mas agora com olhos de ver ao longe - Rosa Andorinha arrastando-se num torpor pelo corredor principal da vila, o que dá acesso ao pátio. Sem nunca lá chegar. Numa tentativa de explicação mais esforçada, era como assistir ao mesmo take de uma película sem fito nem raccord entre cenas: Rosa Andorinha quase chegava àquela praça interior que era o centro do mundo, ao candeeiro que ditava as horas à laia de farol, e abruptamente, num corte total de planos, lá estava ela outra vez no princípio do caminho.

Curioso, pensou o nosso recém-profissional da levitação, até onde conseguirei eu distinguir com estes olhos regateados à margem da lei?

(Cont.)

segunda-feira, junho 06, 2005

The village (I)


(Miguel Costa)

O horário foi colocado no portão porque os habitantes declararam, no referendo convocado para o efeito, que viver todos os dias cansa. Foi assim que se estabeleceram as excepções durante as quais nenhum cidadão podia ser apanhado a viver, quer dizer, melhor seria que não vivesse mesmo, esse é que era o espírito da lei. As autoridades esculpiram então no portão, com uma caligrafia fina e cuidada, o 'Horário', aquilo que as gerações vindouras apelidaram de 'calendário existencial'.

A princípio, o 'Horário' - entre as 8 e as 19 horas, proibido aos sábados, domingos e feriados - foi aceite sem grandes perplexidades nem questões. Todos imaginaram como seria bom suspender o trabalho, os problemas, os dilemas, as paixões mal sucedidas, os cuidados com os filhos, o pensamento que não nos sai da cabeça. Colocar a vida em 'stand-by', escapar de si próprio. E tudo começou por correr bem. Nunca ninguém soube o que acontecia naquelas horas e naqueles dias em que era proibido viver, porque ninguém estava vivo para contar a história.

Na segunda-feira seguinte, às 8 da matina, os habitantes da Vila encontravam-se no largo, ao pé do solitário candeeiro que ditava o 'Horário' com o seu piscar de luzes, à laia de farol, e regozijavam. Que o vizinho estava com muito melhor aspecto, via-se mesmo que a vida lhe tinha dado uma folga. A menina do 3.º esquerdo tinha finalmente parado de chorar - esquecera como fazê-lo depois do interregno em que que tinha estado sem respirar. O melhor dos mundos é aquele que se pode deter para sair durante um bocadinho, pensavam. E logo se recolhiam para a próxima pausa.

Mas há sempre os individualistas. Os sacanas dos individualistas. Os que acham que a sua vida e aquilo que fazem dela em determinado momento é mais importante do que o sossego do colectivo. E um dia - um belo dia, por sinal, em que a luz conseguia penetrar nos muros da Vila, vinda da cidade branca que se acreditava estar lá fora (os habitantes tinham ganho medo ao que estava 'lá fora', na zona sem leis de interrupção da vida, e ninguém se lembrava do seu aspecto - a memória estava preguiçosa com tantas interrupções) -, um dia, dizíamos nós, Zé Gato decidiu que não terminaria ali o beijo enlaçado que poisava em Rosa Andorinha, só porque eram 19 horas.

(Cont.)

quarta-feira, junho 01, 2005

O nascimento de uma nação


(MJM)

Compreendes o risco que corremos? Aqui nesta pista onde tudo começou há poucos minutos, sinto-te essencial. Não quero ir além destas tábuas de madeira, tap tap, os nossos corpos são a fronteira de um país ainda por desenhar. Desenhamo-lo em cada passo. Ali as montanhas, aqui o rio que divide a capital, todas as pessoas que o habitam e respiram e trabalham e vivem apenas nestas tábuas de madeira, contemo-los todos. Tap tap, agora o presidente desse país distante mas desenhado aqui, nos nossos corpos, no rasto dos nossos passos na madeira, agora esse presidente vai aprovar uma nova lei, e ao abrigo dessa lei desse país distante eu posso beijar-te sem consequências. Será um beijo longo, e nele respiram todos os habitantes, trabalhadores, será pois um beijo a bem da nação, do nosso país distante. Um beijo sem jurisprudência além destas tábuas de madeira, ninguém lhe reconhecerá valor legal fora destas fronteiras, se o fizermos atravessar essa linha seremos contrabandistas. Tap. Aqui nesta pista, compreendes o risco que corremos?

sexta-feira, maio 27, 2005

Big Bang


(Miguel Costa)

Vamos lá ver, afinal, se o universo está em expansão.